Lemmy avisou o Airbourne: “Vocês serão atacados por todos os lados”
Antes de o Airbourne conquistar seu espaço no hard rock, Lemmy Kilmister deixou aos australianos um conselho direto sobre como proteger sua identidade, seu som e sua carreira.
Quando o Airbourne ainda era uma jovem banda australiana tentando abrir caminho no mundo do rock, Lemmy Kilmister já enxergava algo que muitos da indústria demorariam a perceber: talento não bastava. Era preciso preservar a identidade. Durante as filmagens do videoclipe de “Runnin’ Wild”, em 2007, o lendário vocalista e baixista do Motörhead aproveitou um encontro com os músicos para oferecer uma verdadeira aula sobre os perigos da indústria fonográfica.
Anos depois, Joel e Ryan O’Keeffe ainda tratam aquela conversa como um dos momentos mais importantes da trajetória do grupo.
“Ter o Lemmy olhando nos seus olhos e dizendo as coisas como elas são foi um verdadeiro presente”, recordou Joel O’Keeffe.
Um encontro que começou dentro de uma limusine
A aproximação entre Airbourne e Lemmy não aconteceu por acaso. A banda havia dividido palcos com o Motörhead na Austrália e já existia uma admiração mútua. Quando chegou o momento de gravar o videoclipe de “Runnin’ Wild”, faixa-título do álbum de estreia internacional do Airbourne, lançado em 2007, Lemmy foi convidado para participar.
O músico aceitou sem transformar a participação em uma negociação milionária. Seus pedidos, segundo Joel O’Keeffe, foram muito mais próximos da cartilha clássica do rock’n’roll: duas garrafas grandes de Jack Daniel’s, duas garrafas de Coca-Cola, anéis de cebola e uma limusine.
A cena descrita por Joel parece saída diretamente de um videoclipe de rock.
Enquanto a equipe trabalhava nas câmeras, os integrantes do Airbourne aguardavam. Então uma limusine chegou. O vidro baixou e, inicialmente, tudo o que eles conseguiam enxergar era o brilho de um cigarro. Um isqueiro iluminou o rosto de Lemmy.
A ordem foi simples:
“Ok, rapazes, pulem.”
Os quatro músicos entraram no carro. E ali, longe das câmeras, receberam uma das conversas mais importantes de suas carreiras.
“Você será atacado por todos os lados”
Lemmy não falou apenas sobre rock. Falou sobre negócios, contratos, pessoas e, principalmente, sobre identidade.
Segundo Joel O’Keeffe, o conselho incluía questões fundamentais para uma banda que estava começando a ganhar projeção: ter um empresário de verdade, contar com um advogado confiável e compreender que uma gravadora poderia mudar.
Mas a advertência que ficou marcada foi ainda mais direta.
Lemmy alertou que eles seriam pressionados de todos os lados e que pessoas tentariam modificar o som, a aparência e a própria identidade do Airbourne.
A previsão acabou se confirmando.
“Eles tentaram”, acrescentou Ryan O’Keeffe. “Eles tentaram mudar a gente completamente.”
Joel lembra que a banda passou a ouvir que era “demais” em diferentes aspectos. Rock demais. Direta demais. Pesada demais. Rock’n’roll demais.
Também houve tentativas de alterar a imagem do vocalista, incluindo roupas e sessões de fotos diferentes da estética que havia ajudado a definir a banda.
Para um grupo construído sobre a energia crua do hard rock australiano, a pressão representava justamente o risco que Lemmy havia identificado.
Lemmy reconheceu no Airbourne aquilo que o mercado queria mudar
Existe uma ironia poderosa nessa história.
Lemmy passou décadas defendendo uma ideia simples: Motörhead deveria soar como Motörhead.
A banda nunca precisou suavizar sua identidade para acompanhar tendências. O trio construiu uma carreira inteira em torno de uma sonoridade própria, baseada na velocidade, no peso, no blues, no punk e no espírito mais visceral do rock’n’roll.
Ao conversar com o Airbourne, Lemmy provavelmente reconheceu nos australianos algo semelhante.
O quarteto formado por Joel O’Keeffe, David Roads, Justin Street e Ryan O’Keeffe havia surgido com uma proposta que não escondia suas influências. AC/DC, Rose Tattoo, Motörhead e o hard rock australiano estavam presentes na atitude e na música.
O problema é que justamente aquilo que tornava o Airbourne interessante também poderia ser visto pela indústria como algo a ser “corrigido”.
Foi nesse momento que o conselho de Lemmy ganhou valor.
“Era como o mestre e seus aprendizes”
Joel O’Keeffe descreveu a conversa como um encontro entre mestre e aprendizes.
E a comparação faz sentido.
Naquele momento, Lemmy já carregava décadas de estrada, incontáveis turnês, contratos, mudanças de formação, problemas com gravadoras e uma carreira construída sob suas próprias regras. O Airbourne, por outro lado, ainda estava começando a descobrir o tamanho da estrada que teria pela frente.
O encontro aconteceu em uma época decisiva para a banda.
“Runnin’ Wild” havia colocado o Airbourne no radar internacional e apresentado ao público uma banda que parecia ter atravessado diretamente das décadas de 1970 e 1980 para o novo milênio, sem abandonar amplificadores valvulados, riffs simples, volume alto e a filosofia de que rock deveria funcionar principalmente no palco.
O videoclipe com Lemmy ajudou a reforçar essa ligação entre gerações. No vídeo de “Runnin’ Wild”, o líder do Motörhead aparece dirigindo o caminhão que transporta a banda, numa participação que se tornou uma das imagens mais lembradas da história do Airbourne.
De “Runnin’ Wild” ao novo Airbourne
Quase duas décadas depois daquele encontro, o conselho de Lemmy continua fazendo sentido para a banda.
O Airbourne prepara seu sexto álbum de estúdio, autointitulado Airbourne, pela Spinefarm Records. O trabalho reúne 12 faixas e inclui “Gutsy”, “Alive After Death (Last Plane Out)”, “Here She Comes”, “Kid In A Candy Store”, “Sky High” e “Send Me To Rock ‘N’ Roll Heaven”.
A produção reúne novamente Brian Howes e o engenheiro Mike Fraser, enquanto Zakk Cervini ficou responsável pela mixagem e Ted Jensen pela masterização. Parte das gravações aconteceu no Music Farm Studio, próximo a Byron Bay, utilizando um console Neve originalmente associado ao Alberts Studios, equipamento que também foi utilizado em trabalhos ligados a nomes fundamentais do rock australiano, como AC/DC, Rose Tattoo e The Angels.
O álbum também mantém uma conexão explícita com os heróis que ajudaram a formar o Airbourne.
“Alive After Death (Last Plane Out)” presta homenagem a figuras como Lemmy, Bon Scott e John Bonham. Já “Send Me To Rock ‘N’ Roll Heaven” faz referência a diversos ícones do rock que partiram, incluindo o próprio Lemmy.
Há, portanto, uma espécie de círculo se fechando.
O homem que um dia aconselhou quatro jovens australianos dentro de uma limusine agora aparece, anos depois, entre as figuras homenageadas pela banda que ajudou a orientar.
O legado de Lemmy continua no Airbourne
Lemmy Kilmister morreu em 28 de dezembro de 2015, aos 70 anos, mas sua influência permanece espalhada por diferentes gerações do Rock.
No caso do Airbourne, ela vai além da música.
Foi uma orientação sobre carreira, autenticidade e resistência à pressão externa. Em uma indústria acostumada a transformar artistas em produtos, Lemmy deixou aos australianos uma mensagem essencial: se o mundo tentar mudar aquilo que torna uma banda especial, talvez seja justamente aquilo que precisa ser protegido.
Joel O’Keeffe resumiu o significado daquele encontro de maneira simples: para uma banda ainda pequena, ter Lemmy olhando diretamente para eles e dizendo as coisas como eram foi um presente.
Talvez essa seja uma das melhores formas de entender o legado de Lemmy.
Não apenas como músico, mas como alguém que reconhecia o valor de permanecer fiel ao próprio Rock’n’Roll.
E o Airbourne parece ter aprendido a lição.
Airbourne – Site oficial: airbournerock.com
YouTube oficial: Airbourne Official YouTube
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