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Dea Matrona: O Rock que saiu das ruas de Belfast

Duo irlandês formado por Mollie McGinn e Orláith Forsythe transforma influências do Rock clássico em uma identidade própria e chega a 2026 com o segundo álbum, Hate That I Care

A história da Dea Matrona não começou em um grande palco, em um estúdio famoso ou diante de uma gravadora. Começou nas ruas de Belfast, na Irlanda do Norte, com duas jovens musicistas tocando Rock para quem passava.

Hoje, Mollie McGinn e Orláith Forsythe formam uma das duplas mais interessantes da nova geração do Rock britânico e irlandês. Em junho de 2026, elas lançaram Hate That I Care, segundo álbum da carreira, aprofundando uma trajetória construída com independência, apresentações ao vivo e uma relação assumida com a tradição do Rock.

Antes de chegarem aos grandes festivais e dividirem palcos com nomes consagrados, as duas precisaram conquistar espaço tocando nas ruas. E foi justamente ali que começaram a desenvolver a característica que ainda acompanha a Dea Matrona: a capacidade de alternar instrumentos, dividir vocais e transformar referências de diferentes gerações em música própria.

Duas amigas, Belfast e o começo nas ruas

Mollie McGinn e Orláith Forsythe estudaram na mesma escola e se aproximaram ainda jovens. As duas compartilhavam uma paixão por nomes fundamentais da música, especialmente Fleetwood Mac, Led Zeppelin, Black Sabbath e Aerosmith.

A parceria musical ganhou forma quando começaram a tocar juntas em Belfast. O trabalho de rua, conhecido como busking, não era apenas uma maneira de conseguir exposição. Foi também uma verdadeira escola.

As duas tocavam por horas, enfrentando frio, chuva e as condições pouco previsíveis das apresentações nas ruas. Em registros da própria banda, aparecem apresentações que incluem Fleetwood Mac, Led Zeppelin, Cream, Jimi Hendrix, Black Sabbath, Aerosmith e outros nomes que ajudaram a formar o repertório musical da dupla.

A experiência também explica uma particularidade da Dea Matrona: Mollie e Orláith não ficam presas a funções rígidas dentro da banda. As duas cantam e alternam entre guitarra e baixo.

Nos primeiros anos, essa troca de instrumentos tinha inclusive uma razão bastante prática. O baixo era pesado para carregar durante as apresentações de rua, e as duas passaram a alternar os instrumentos. Com o tempo, aquilo que nasceu por necessidade acabou se tornando parte da identidade da banda.

“Oh Well” e o momento em que tudo mudou

Entre tantas músicas tocadas nas ruas, uma composição de Peter Green para o Fleetwood Mac teria um papel decisivo na trajetória da dupla.

Oh Well tornou-se uma das músicas mais associadas à fase inicial da Dea Matrona. Em 2020, um vídeo das duas tocando a música durante uma apresentação de rua ganhou enorme repercussão na internet.

A escolha não poderia ser mais representativa.

O riff de Oh Well carregava a tradição do Blues Rock britânico, enquanto a interpretação das duas mostrava que aquelas referências não estavam sendo tratadas como peças de museu. Elas faziam parte da formação musical de uma nova geração.

A própria Orláith já contou que Oh Well foi um dos primeiros riffs clássicos que aprendeu na guitarra e que a música acabou retornando à sua trajetória quando o vídeo da apresentação de rua alcançou milhões de visualizações.

Foi uma espécie de encontro entre passado e presente: uma música originalmente lançada pelo Fleetwood Mac décadas antes ajudando duas jovens de Belfast a encontrar uma audiência muito maior.

De trio a dupla

A Dea Matrona começou oficialmente como um trio, com Mamie McGinn, irmã de Mollie, na bateria.

A formação permaneceu assim durante os primeiros anos da carreira, enquanto Mollie e Orláith dividiam os vocais e alternavam entre guitarra e baixo.

Em fevereiro de 2022, porém, Mamie deixou a banda para seguir outros interesses e continuar sua formação. A saída transformou a Dea Matrona em uma dupla, formato que permanece até hoje.

A mudança não encerrou a atividade musical. Para as apresentações, Mollie e Orláith passaram a trabalhar com músicos de apoio e bateristas convidados, mantendo o projeto centrado nas duas integrantes. A própria Mollie explicou posteriormente que a decisão de Mamie foi respeitada pelas duas e que a amizade entre elas permaneceu.

O Rock clássico como ponto de partida

É impossível falar sobre Dea Matrona sem mencionar o Rock clássico.

Fleetwood Mac, Led Zeppelin, Black Sabbath, Aerosmith, Cream, Jimi Hendrix e Rory Gallagher aparecem de diferentes maneiras na formação musical das integrantes.

Mas chamar a banda simplesmente de “retrô” seria limitar demais o que elas fazem.

O primeiro álbum, For Your Sins, lançado em 3 de maio de 2024, mostrou justamente essa tentativa de conciliar diferentes referências. O trabalho transita entre Rock, Indie, Pop, Blues e elementos que remetem diretamente à tradição dos anos 1960 e 1970.

A influência de Rory Gallagher também merece destaque. O guitarrista irlandês é uma referência particularmente importante para a dupla, reforçando a ligação da Dea Matrona com uma tradição musical que atravessa o Mar da Irlanda e passa diretamente pela história do Blues Rock.

No palco, essa influência ganha ainda mais força. A música é construída sobre guitarras, baixo, vocais harmonizados e uma postura que privilegia a performance.

For Your Sins: a estreia em álbum

Antes de chegar ao primeiro álbum, a Dea Matrona já havia lançado trabalhos independentes, incluindo o EP Away From The Tide, de 2019, e singles que ajudaram a ampliar sua presença.

Em 2024 veio For Your Sins, o primeiro álbum completo.

O disco reúne 12 faixas, entre elas “Stuck On You”, “Stamp On It”, “Red Button”, “Every Night I Want You”, “So Damn Dangerous”, “Glory, Glory (I Am Free)”, “Wilderness”, “Did Nobody Ever Love You?”, “Won’t Feel Like This Forever”, “Dead Man’s Heart”, “Get My Mind Off” e “Black Rain”.

Mais do que uma estreia, For Your Sins consolidou uma característica importante da Dea Matrona: a capacidade de escrever e produzir o próprio material.

Os créditos do álbum registram Mollie McGinn e Orláith Forsythe como compositoras e produtoras. O trabalho foi lançado de forma independente, mantendo nas mãos da dupla uma parcela importante do controle criativo.

O resultado chamou atenção justamente por não tentar esconder suas influências.

Há ecos de Fleetwood Mac, Led Zeppelin, The White Stripes e outras referências, mas a banda procura transformar esse repertório em uma linguagem própria.

Da rua para grandes palcos

A distância entre as ruas de Belfast e os grandes festivais foi construída passo a passo. A Dea Matrona passou por festivais como Reading & Leeds, Rock Werchter, Electric Picnic e Glastonbury, além de realizar apresentações próprias e participar de turnês como banda de apoio para artistas de diferentes gerações.

Entre os nomes com os quais a dupla dividiu palcos estão Sheryl Crow, Shania Twain, The Corrs, Sting, Bryan Adams, The Darkness, The Beaches, Chris Shiflett e Eagles of Death Metal. Essa trajetória diz muito sobre a banda.

A Dea Matrona não chegou ao circuito internacional simplesmente por apresentar uma estética ligada ao passado. Chegou porque construiu experiência de palco, repertório e público durante anos.

O caminho foi gradual: rua, pequenos palcos, festivais, turnês, apresentações internacionais e, finalmente, shows próprios em diferentes mercados.

Hate That I Care: uma nova fase

Em 5 de junho de 2026, a Dea Matrona lançou Hate That I Care, seu segundo álbum de estúdio. O disco representa uma nova etapa para Mollie e Orláith.

Se For Your Sins apresentou uma banda profundamente conectada ao Rock clássico, o novo trabalho amplia as fronteiras sonoras. A própria apresentação oficial do álbum o descreve como mais sombrio e emocionalmente intenso, com uma abordagem de Alternative Rock mais marcada.

O álbum também marca uma mudança importante no caminho profissional da dupla. Hate That I Care foi lançado pela AWAL, em um acordo que coloca a Dea Matrona em uma nova posição dentro da indústria fonográfica. O trabalho, entretanto, continua carregando a assinatura criativa de Mollie e Orláith.

São dez faixas ao todo:

“Hate That I Care”, “My Own Party”, “A Rebel Song”, “Aisling”, “John Doe”, “Wait”, “Magic Spell”, “Summer Rain”, “Siren Song” e “Told U I’m Strange”.

A faixa-título foi lançada como single em 5 de março de 2026, antecedendo o álbum. “John Doe” e “My Own Party” também fizeram parte da campanha de divulgação do novo trabalho.

O novo disco mostra que a Dea Matrona não pretende ficar parada em uma fórmula construída a partir da nostalgia.

A tradição continua presente, mas agora existe uma preocupação maior em explorar outras texturas, atmosferas e caminhos dentro do Rock alternativo.

Uma banda que entende de onde veio

Talvez esse seja o aspecto mais interessante da Dea Matrona. Mollie McGinn e Orláith Forsythe não cresceram tentando apagar o passado do Rock. Pelo contrário: aprenderam com ele.

Antes de escrever suas próprias músicas, tocaram Fleetwood Mac, Led Zeppelin, Cream, Black Sabbath, Aerosmith, Hendrix e Rory Gallagher nas ruas de Belfast.

Antes dos grandes palcos, tocaram para desconhecidos. Antes da estrutura profissional da indústria, construíram público por conta própria.

E antes de serem apresentadas como uma das novas forças do Rock irlandês, precisaram provar, instrumento na mão, que havia algo ali que merecia ser ouvido.

Essa é uma diferença importante. A Dea Matrona não existe apenas porque duas jovens decidiram montar uma banda. Existe porque Mollie e Orláith passaram anos estudando música, tocando ao vivo, experimentando instrumentos, escrevendo, produzindo e construindo uma identidade.

O Rock sempre teve espaço para novas gerações. O que muda é a maneira como cada geração encontra seu caminho.

No caso da Dea Matrona, esse caminho começou nas ruas de Belfast, passou pelos riffs de Fleetwood Mac e Led Zeppelin, ganhou força com a independência artística e chegou, em 2026, a um segundo álbum que mostra duas musicistas dispostas a continuar avançando sem abandonar as raízes que ajudaram a formar sua identidade.

A história ainda está sendo escrita. E talvez seja justamente essa a parte mais interessante.

Dea Matrona — informações oficiais

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Emilio Aquino

ESCRITO POR: Emilio Aquino

Redator especialista do portal EHB Rock, cobrindo o universo do Rock and Roll, Heavy Metal e lançamentos.

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