AC/DC em Buenos Aires: a energia de River Plate transformou três noites de Rock em um dos maiores registros ao vivo da história da banda
Filmado em dezembro de 2009, durante a Black Ice World Tour, Live at River Plate eternizou o encontro entre o AC/DC e uma multidão argentina que transformou o Estádio Monumental em um verdadeiro território do Rock n’ Roll.
Existem apresentações em que a banda domina o palco. Existem outras em que o público participa de cada acorde, canta cada refrão e transforma o espetáculo em algo que ultrapassa os limites de uma apresentação musical. O encontro do AC/DC com o público argentino, em dezembro de 2009, pertence à segunda categoria.
O resultado ficou registrado em AC/DC: Live at River Plate, um dos documentos audiovisuais mais impressionantes da trajetória ao vivo do grupo australiano. Gravado durante três apresentações esgotadas no Estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires, nos dias 2, 4 e 6 de dezembro de 2009, o trabalho captura uma combinação rara: uma banda em plena força, um repertório que atravessa gerações e uma plateia que parece não conhecer limites quando o assunto é Rock.
A intensidade das imagens é tão marcante que, para muitos admiradores, River Plate representa uma das maiores demonstrações de energia coletiva já registradas em um show do AC/DC. É justamente essa característica que torna o material tão especial: não se trata apenas de assistir a Angus Young, Brian Johnson e companhia tocando seus clássicos, mas de testemunhar uma multidão inteira vivendo cada segundo da apresentação.
O retorno do AC/DC à Argentina depois de 13 anos
Para compreender a dimensão daqueles shows, é necessário voltar ao contexto da turnê.
O AC/DC retornava à Argentina depois de 13 anos de ausência. A última passagem anterior havia acontecido em 1996, e a expectativa em torno da nova visita era enorme. A banda chegava ao país em um momento de grande atividade internacional, impulsionada pelo lançamento de Black Ice, seu primeiro álbum de estúdio com material inédito em oito anos.
Lançado em outubro de 2008, Black Ice marcou uma nova etapa comercial para o grupo e serviu de base para uma extensa turnê mundial que percorreu diferentes continentes entre 2008 e 2010.
Buenos Aires recebeu três apresentações consecutivas no Monumental de Núñez. Os ingressos se esgotaram, e a dimensão da recepção foi expressiva: a Columbia Records informou, no anúncio do lançamento do DVD, que quase 200 mil pessoas acompanharam os três shows. Na cobertura da época, o jornal argentino La Capital apresentou uma estimativa de aproximadamente 150 mil espectadores para as três noites.
Independentemente da diferença entre as estimativas, a dimensão do acontecimento é incontestável. O AC/DC encontrou na Argentina uma das recepções mais intensas de sua carreira.
Uma plateia que também se tornou protagonista
O aspecto que mais chama a atenção em Live at River Plate é a participação do público.
Desde os primeiros momentos de “Rock N Roll Train”, a multidão aparece completamente envolvida. São milhares de vozes acompanhando a música, braços levantados, movimentos sincronizados e uma vibração que acompanha praticamente todo o repertório.
Em “Thunderstruck”, a resposta coletiva ganha uma dimensão impressionante. O público acompanha os famosos ataques vocais e instrumentais da música, transformando o estádio em um enorme coro.
Em “Hells Bells”, a entrada do sino sobre o palco cria um dos momentos visuais mais marcantes do espetáculo. Já em “T.N.T.”, a participação da plateia demonstra a força de uma música que há décadas faz parte da identidade do AC/DC.
Não é apenas uma questão de volume. O que diferencia aquelas imagens é a continuidade da participação popular. A multidão não aparece somente nos grandes refrões. Ela acompanha a banda, reage aos solos, responde aos vocais e mantém a intensidade ao longo de toda a apresentação.
O diretor David Mallet compreendeu a importância desse elemento e dedicou espaço significativo às imagens do público. O resultado é um registro no qual palco e plateia dividem o protagonismo.
Angus Young, Brian Johnson e uma formação em plena atividade
Outro fator fundamental para compreender a importância daquele registro está na formação do AC/DC que subiu ao palco em 2009.
A banda era composta por Angus Young na guitarra solo, Malcolm Young na guitarra rítmica, Brian Johnson nos vocais, Cliff Williams no baixo e Phil Rudd na bateria.
Era uma formação de enorme experiência, com músicos que conheciam profundamente a identidade sonora construída pelo grupo ao longo de décadas.
Angus Young continuava sendo o centro visual da apresentação. Seu uniforme escolar, a movimentação pelo palco, os solos e a utilização de sua Gibson SG faziam parte de uma identidade artística reconhecível em qualquer lugar do mundo.
Malcolm Young, responsável pela guitarra rítmica, sustentava a estrutura musical que sempre diferenciou o AC/DC. Seus riffs e acordes eram fundamentais para a construção daquele som direto, pesado e preciso.
Brian Johnson entregava os vocais com sua característica rouquidão e presença de palco. A interação com Angus e a capacidade de conduzir milhares de pessoas faziam parte da dinâmica do espetáculo.
Cliff Williams mantinha a sustentação do baixo, enquanto Phil Rudd entregava a bateria econômica e precisa que ajudou a definir a sonoridade clássica da banda.
Há também uma dimensão histórica que hoje torna essas imagens ainda mais importantes. Malcolm Young deixaria as atividades com o grupo em 2014, em razão de problemas de saúde, e faleceria em 2017. Phil Rudd também não permaneceria na formação nos anos seguintes. O registro de River Plate preserva, portanto, uma formação histórica do AC/DC em plena atividade.
Black Ice World Tour: a força de um álbum e a permanência dos clássicos
A turnê que levou o AC/DC à Argentina tinha como principal referência o álbum Black Ice, lançado em 2008.
Produzido por Brendan O’Brien, o disco apresentou 15 faixas e marcou o retorno da banda aos estúdios com material inédito depois de um longo intervalo desde Stiff Upper Lip, de 2000.
O repertório de River Plate equilibrou as novas composições com músicas fundamentais da trajetória do grupo.
“Rock N Roll Train” abriu o espetáculo, apresentando ao público a energia do novo trabalho. “Big Jack”, “Black Ice” e “War Machine” também ganharam espaço, mostrando que o material recente tinha força para dividir o palco com clássicos estabelecidos.
A sequência de músicas históricas, entretanto, demonstra a amplitude do catálogo da banda.
“Back in Black”, “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, “Shot Down in Flames”, “Thunderstruck”, “Hells Bells”, “Shoot to Thrill”, “You Shook Me All Night Long” e “T.N.T.” aparecem entre os grandes momentos do repertório.
“Whole Lotta Rosie” mantém a tradição da apresentação com a famosa Rosie inflável, enquanto “Let There Be Rock” oferece espaço para Angus Young desenvolver um dos momentos instrumentais mais extensos do espetáculo.
Nos momentos finais, “Highway to Hell” e “For Those About to Rock (We Salute You)” encerram a apresentação com duas das músicas mais representativas da história do AC/DC.
O repertório demonstra uma característica essencial da banda: mesmo apresentando um álbum novo, o grupo não precisava abandonar sua história para manter a atenção do público. As novas músicas conviviam naturalmente com composições que já faziam parte da memória coletiva do Rock.
A produção de Live at River Plate: 32 câmeras registrando a história
O registro audiovisual também merece destaque.
Dirigido por David Mallet e produzido por Rocky Oldham, Live at River Plate foi filmado integralmente em alta definição, utilizando 32 câmeras.
A estrutura de captação permitiu registrar diferentes ângulos do palco, os músicos, os equipamentos, os efeitos visuais e, principalmente, a dimensão da multidão presente no estádio.
A edição final reúne imagens das três apresentações realizadas em Buenos Aires. Portanto, não se trata da reprodução integral de uma única noite, mas de uma montagem construída a partir dos melhores registros daqueles três shows.
O trabalho apresenta 19 músicas, com duração aproximada de 110 minutos, além de material adicional sobre a produção dos espetáculos e os bastidores.
Essa escolha de produção foi fundamental para preservar a dimensão do acontecimento. As câmeras não ficam restritas aos músicos. Elas percorrem o estádio e mostram como a apresentação era recebida por milhares de pessoas.
O resultado é uma experiência audiovisual que consegue transmitir parte da atmosfera de um estádio completamente envolvido pela música.
O repertório completo de AC/DC: Live at River Plate
O lançamento reúne 19 faixas, contemplando diferentes momentos da trajetória do grupo e as composições do álbum Black Ice.
- Rock N Roll Train
- Hell Ain’t a Bad Place to Be
- Back in Black
- Big Jack
- Dirty Deeds Done Dirt Cheap
- Shot Down in Flames
- Thunderstruck
- Black Ice
- The Jack
- Hells Bells
- Shoot to Thrill
- War Machine
- Dog Eat Dog
- You Shook Me All Night Long
- T.N.T.
- Whole Lotta Rosie
- Let There Be Rock
- Highway to Hell
- For Those About to Rock (We Salute You)
A seleção percorre diferentes fases do AC/DC e evidencia a consistência de um repertório construído ao longo de décadas.
O lançamento que levou Buenos Aires para o mundo
Embora os shows tenham acontecido em dezembro de 2009, o público mundial teve acesso ao registro oficial em 2011.
A Columbia Records anunciou o lançamento de Live at River Plate para 10 de maio de 2011, em DVD e Blu-ray. O material também chegou ao mercado em formato de álbum ao vivo.
O lançamento teve uma recepção comercial expressiva. Em maio de 2011, a gravadora anunciou que o DVD havia alcançado o primeiro lugar em 17 países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Argentina, Austrália e Brasil.
O sucesso demonstrou que o interesse pelo registro ultrapassava o público que esteve presente em Buenos Aires. Aquelas imagens permitiram que admiradores de diferentes partes do mundo conhecessem a dimensão de uma apresentação que já havia entrado para a história da banda.
O material também ganhou outra utilização importante em 2010, quando imagens das apresentações foram aproveitadas no videoclipe de “Shoot to Thrill”, em sua versão associada à trilha sonora de Iron Man 2.
Por que River Plate ocupa um lugar tão especial na história do AC/DC?
O AC/DC construiu uma carreira marcada por apresentações monumentais. Ao longo de décadas, a banda percorreu estádios, arenas e festivais em diferentes países, sempre mantendo uma identidade musical própria.
Entretanto, River Plate apresenta uma combinação particularmente forte de elementos.
Existe a importância histórica do retorno à Argentina depois de 13 anos. Existe a formação com Angus e Malcolm Young, Brian Johnson, Cliff Williams e Phil Rudd. Existe a força do repertório, que reúne músicas de diferentes fases da discografia. E existe, acima de tudo, a participação de uma plateia que parece transformar cada composição em um acontecimento coletivo.
É importante reconhecer que classificar um show como o melhor da carreira de uma banda é uma avaliação pessoal. Existem apresentações extraordinárias do AC/DC em diferentes períodos, e cada fã terá suas próprias referências.
Mas há algo difícil de ignorar quando se assiste a Live at River Plate: a energia que vem das arquibancadas e da pista parece alimentar a própria apresentação.
A banda toca com a precisão que construiu sua reputação, mas o público argentino acrescenta uma dimensão que não pode ser reproduzida artificialmente em estúdio. É essa interação que torna o registro tão especial.
River Plate não é apenas um documento de uma grande turnê. É o encontro entre uma das maiores bandas do Hard Rock e uma multidão que demonstra, do primeiro ao último acorde, a força que o Rock ainda é capaz de provocar.
Para quem acompanha a história do AC/DC, o registro de Buenos Aires é indispensável. Para quem procura compreender a relação entre uma banda e seu público, é uma das demonstrações mais contundentes que o Rock n’ Roll já deixou registradas.
Canais oficiais
- Site oficial do AC/DC: https://www.acdc.com/
- Página oficial do álbum Live at River Plate: https://www.acdc.com/music/live-at-river-plate/
- YouTube oficial do AC/DC: canal oficial da banda.
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